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Além de Flores e Chocolates, Uma Celebração dos Nossos Direitos e Lutas

Reflexos da Desigualdade de Gênero no Mercado de Dados e Tecnologia

Aproveitando a ocasião do Dia Internacional da Mulher para ressaltar a importância de refletirmos sobre as persistentes disparidades de gênero que permeiam nossa sociedade. Neste contexto, apresento alguns dos dados obtidos graças ao dataset State of Data Brazil 2022, fruto de uma colaboração entre a Data Hackers e a Bain & Company para mapear o cenário do mercado de trabalho de dados no Brasil.

O dataset utilizado é resultado da pesquisa de 2022. Apesar de já ter sido lançado o relatório, a previsão para disponibilizar os dados do ano de 2023 é para abril de 2024.

Para uma melhor compreensão dos dados, vamos comparar a distribuição por gênero na população brasileira como um todo, no mercado de tecnologia e nas respostas da pesquisa.

Observação: Este relatório não tem a intenção de reforçar os padrões cisnormativos. No entanto, devido à limitação dos dados disponíveis, não foi possível realizar uma análise mais abrangente dos gêneros.

De acordo com a última pesquisa do IBGE de 2023, as mulheres representam apenas 23% dos profissionais na engenharia e 29% na área de Tecnologia da Informação e Comunicação.

Proporção de homens e mulheres na amostra em comparação com a população brasileira

Observando o gráfico, percebe-se que a proporção de homens e mulheres que responderam à pesquisa é equivalente à distribuição de profissionais no Brasil. Entretanto, também segundo ao último Censo Demográfico, as mulheres representam a maioria da população brasileira.

Embora estejamos lidando com uma amostra relativamente pequena, os dados corroboraram a percepção de que, não surpreendentemente, as mulheres continuam enfrentando significativas lacunas de representatividade no mercado de trabalho, especialmente no campo da tecnologia.

Ao analisarmos a questão pela ótica étnico-racial, observamos que as mulheres não brancas são minoria. Essa interseccionalidade entre raça e gênero gera obstáculos específicos para essas mulheres no mercado de trabalho brasileiro. Elas enfrentam o duplo desafio do sexismo e do racismo, o que limita suas oportunidades e as coloca em desvantagem em relação aos homens brancos.

Porcentagem das mulheres que responderam a pesquisa de acordo com raça/etnia

Estudos comprovam que as mulheres não brancas têm maior dificuldade em encontrar emprego, ocupam cargos com menor remuneração e prestígio, e são submetidas a mais discriminações e violências no ambiente de trabalho.

Distribuição racial

Portanto, torna-se evidente que não é possível abordar a questão da desigualdade de gênero sem racializar o discurso. A luta por um mercado de trabalho mais justo e igualitário exige o reconhecimento e o combate às interseccionalidades que colocam as mulheres não brancas em uma desvantagem ainda maior.

Agora, ao ampliar o foco e considerar todos os grupos étnicos, podemos observar que as mulheres continuam sendo minoria nos escalões superiores da hierarquia corporativa. O gráfico analisa a proporção de mulheres em cada nível (total) e a distribuição delas por nível dentro do grupo feminino. Essa abordagem nos permite avaliar a representatividade feminina em cada nível em relação ao total de mulheres na empresa (parcial).

Porcentagem de homens e mulheres por nível

Notamos que as mulheres são minoria em todos os níveis quando observamos o panorama geral. No entanto, ao analisar subgrupos por gênero, percebemos uma maior presença feminina nos níveis júnior e pleno, enquanto os níveis sênior são predominantemente ocupados por homens. Essa análise revela que, embora as mulheres sejam minoria nos cargos mais altos, elas estão mais representadas nos níveis mais baixos. Essa disparidade pode ser atribuída a vários fatores, como a escassez de oportunidades de avanço na carreira e a persistente discriminação de gênero.

Desse modo, não é surpreendente observar que o número de mulheres diminui à medida que o salário aumenta.

Percetual de Homens e Mulheres por faixa salaria

Essa questão pode ser explicada pela menor concentração de mulheres em cargos mais altos, mas não é o único motivo. De acordo com o IBGE, as mulheres no Brasil recebem, em média, 77,7% do rendimento dos homens, o que representa uma diferença salarial de 22,3%. Essa disparidade persiste mesmo quando homens e mulheres ocupam o mesmo cargo e possuem as mesmas qualificações. Em áreas como educação, saúde e serviços, a diferença pode chegar a 67,2%. Diversos fatores contribuem para essa desigualdade, como a segregação ocupacional (concentração de mulheres em áreas com menor remuneração), a desvalorização do trabalho feminino e a discriminação de gênero.

Outro ponto que merece destaque é a questão da idade. A discriminação e o preconceito com base na idade afetam negativamente a vida das pessoas em várias esferas. Embora não sejam exclusivos, esses padrões, enraizados na sociedade, impactam especialmente as mulheres.

Distribuição das faixas etárias por gênero

As mulheres mais velhas enfrentam dificuldades em encontrar e manter empregos, muitas vezes sendo preteridas em favor de candidatos mais jovens. Além disso, é comum que mulheres mais velhas recebam salários inferiores aos homens da mesma faixa etária e qualificação. Suas experiências e conhecimentos são frequentemente subestimados, resultando na desvalorização de suas habilidades.

Além disso, as mulheres mais velhas são frequentemente estereotipadas como menos produtivas, inovadoras e capazes de aprender novas tecnologias. Esses estigmas contribuem para a perpetuação das desigualdades de gênero, prejudicando a participação e o avanço das mulheres no mercado de trabalho.

Na pesquisa do State of Data, foi perguntado se os participantes já sentiram que sua experiência profissional foi prejudicada por algum fator. Enquanto aproximadamente 50% das mulheres afirmaram que sim, apenas cerca de 9% dos homens relataram o mesmo.

Distribuição de experiência prejudicada por gênero

Ao examinarmos mais detalhadamente, notamos que a questão racial também influencia essa percepção, com menos relatos entre as mulheres brancas. Isso exemplifica como os desafios enfrentados pelas mulheres de grupos minoritários são amplificados pela sua condição de minoria, destacando a importância de considerarmos a interseccionalidade racial.

Experiência Prejudicada por etnia/raça

Esses são alguns dos aspectos em que se sentiram prejudicadas:

  • Aprovação em processos seletivos/entrevistas
  • Quantidade de oportunidades de emprego/vagas recebidas
  • Atenção dada pelas pessoas diante das minhas opiniões e ideias
  • Velocidade de progressão de carreira
  • Senioridade das vagas recebidas em relação à sua experiência
  • Oportunidades de progressão de carreira
  • Nível de cobrança no trabalho / Stress no trabalho
  • Relação com outros membros da empresa, em momentos de trabalho

O Dia Internacional da Mulher vai além de flores e chocolates; é um dia de reflexão e ação sobre a desigualdade de gênero e os direitos das mulheres. Foi estabelecido para lembrar as lutas históricas das mulheres por justiça, igualdade e dignidade. Embora tenhamos avançado em muitos aspectos, ainda há um longo caminho a percorrer para alcançar a verdadeira igualdade de gênero em todas as esferas da sociedade. Neste 8 de março, devemos renovar nosso compromisso de lutar por um mundo onde todas as mulheres tenham voz, oportunidades e liberdade para viverem suas vidas plenamente, sem medo, discriminação ou restrições. Juntas, podemos continuar a moldar um futuro mais justo e inclusivo para todas as mulheres, hoje e para as gerações futuras.

Fontes:

Síntese de Indicadores Sociais — Pessoas: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9221-sintese-de-indicadores-sociais.html

Estatísticas de gênero: Mulheres e Homens no Brasil: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/genero.html

Educa: https://educa.ibge.gov.br/criancas/brasil/nosso-povo/19631-caracteristicas-da-populacao.html

Dataset: https://www.kaggle.com/datasets/datahackers/state-of-data-2022

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